
fotos fatos e curiosidades antigamente O passado, o legado de um homem pode até ser momentaneamente esquecido, nunca apagado
terça-feira, 20 de dezembro de 2022
1953 Vista aérea da Avenida Victor Ferreira do Amaral onde aparece a estação de tratamento de águas SANEPAR, o ginásio Almir de Almeida [ginásio do Tarumã] e o hipódromo do Tarumã
Vista aérea da Cidade de Curitiba. Aparece em primeiro plano a direita o Prédio da antiga Prefeitura [atual Museu Paranaense], e atrás a praça Tiradentes. Década de 30
Histórias de Curitiba - O Cine Hugo
Histórias de Curitiba - O Cine Hugo
Conhecíamos todos e assistíamos a todos os filmes possíveis, não escapando nenhum de nossa rigorosa crítica.
Pequenos problemas apareciam quando alguns cinemas ficavam com filmes em segunda ou mais semanas em cartaz, o que diminuia muito as opções de escolha.
Pois foi assim que um dia , reunidos na esquina, descobrimos que tínhamos visto todos os filmes da cidade.
"Puxa e agora? Aonde vamos?"
Rememoramos todos espetáculos assistidos e todos os cinemas conhecidos.
"É parece que já vimos todos!"
"Será que esquecemos de algum cinema?"
Acho que não.
Alguém lembra de algum que ainda não fomos?"
Citamos novamente todos os conhecidos e lembrados e parecia que não tínhamos esquecido de nenhum, ou tínhamos? E agora, o que fazer? Surge uma idéia salvadora.
A Lista Telefônica! Gordin-ho, voce que tem telefone, corra até tua casa e veja se fala algum cinema".
Dentro de um pouco, volta com um sorriso.
"Tem um que não fomos. O Cine Hugo.
Alguém conhece?"
"Não, onde fica?"
"Nesse número da Visconde de Guarapuava".
E para pegar a sessão das duas, ao meio e dia e meia, partiu do Alto da Glória uma caravana de bicicletas em direção ao desconhecido cinema. E pedalamos, pedalamos e pedalamos, para chegar ao final da Visconde e nada de cinema.
"Gordinho, voce viu certo este endereço? O número que disse não parece ser de um cine.
Pergunte para o homem que está na porta."
"O Sr. sabe onde fica o Cine Hugo?"
"Não, nunca ouvi falar deste cinema.
Quem falou para voces que tem um cine com este nome
por aqui?"
"Vimos na Lista Telefônica, e o número é este de sua loja."
"Na lista Telefônica?"
O homem ficou quieto pensando, pensando e de repente começou a rir.
"Mas voces leram errado. Não é Cine Hugo, é Hugo Cini.
Na lista depois do Cine vem o Cini!"
Descobrimos o engano.
Tristesa e desânimo.
"Mas esperem ai, disse o homem rindo.
Aqui não é cinema, mas uma fábrica de gasosa, e hoje está passando um filmão. A Gasosa de Framboeza.
Podem sentar no meio fio que já vai começar a sessão!"
E até que foi muito bom aquele dia, pois em vez de cinema, tomamos gasosa e de graça.
Luiz Grocoske é médico.
Andava beirando os seis anos quando, pelas mãos ainda jovens de minha mãe, fui levado da rua Dr. Pedrosa, onde morávamos, para uma velha casa em meio à André de Barros, endereço da professora mais famosa da época.
Andava beirando os seis anos quando, pelas mãos ainda jovens de minha mãe, fui levado da rua Dr. Pedrosa, onde morávamos, para uma velha casa em meio à André de Barros, endereço da professora mais famosa da época.
A Escola de Dona Carola
Lauro Grein Filho
Andava beirando os seis anos quando, pelas mãos ainda jovens de minha mãe, fui levado da rua Dr. Pedrosa, onde morávamos, para uma velha casa em meio à André de Barros, endereço da professora mais famosa da época.
Com a mestra, uma senhora miúda e simpática, em cuja fala cantava o peculiar acento nordestino, minha mãe conversou a respeito do novo aluno, já alfabetizado e um tanto desenvolto nas quatro operações.Ajustadas na hora e no preço de vinte mil réis por mês, D. Carola assegurou à interessada que 1a "puxar"pelo menino, o que desse e pudesse.
Assim que minha mãe saiu, a professora colocou-me defronte ao quadro negro, onde me submeteu a um breve exame oral para ver até onde 1a em português e aritmética.
Somei e diminuí bem, multipliquei regularmente e dividi mal. A sala era retangular, com duas alas de carteiras contíguas que se estendiam por todo comprimento. À frente de tudo D. Carola, em pé, ou sentada na janela, comandando, corrigindo, ensinando. A disciplina era observada à risca e ninguém ousava infrigí-la. Não só pelo respeito que a professora inspirava, como pelo temor às reguadas que estalavam fáceis ao mínimo sinal de mau comportamento.
A escola preparava para os exames de admissão ao Ginásio e Escola Normal.
Estudava-se de tudo: aritmética desde os enormes carroções do livro de Souza Lobo, até álgebra, juros e câmbio.
Em português eram as análises gramáticas, mais que as lógicas, as composições e os ditados extraídos dos "Autores Contemporâneos". Geografia decorava-se no "O Brasil e o Paraná", de Sebastião Paraná. Nesse livro aprendi que a população do Brasil era de 36 milhões de habitantes e a superfície de 8.000.767.01 lkms2.
Não existia recreio, nem intervalos, nem chamadas, nem perda de tempo. O estudo era incessante e só na saída das aul.is é que sobravam opurtunidades para as brincadeiras de rua, pelada, búrico, ou pião, conforme as temporadas. A classe era mista de meninos e meninas, unidos por uma camaradagem sadia que a todos confraternizava na estima e no bom entendimento.
A Escola manteve-se aberta durante pelo menos trinta anos na mesma quadra da André de Barros, próxima à Floriano, instruindo e educando centenas e centenas de crianças.
Recordo e reconheço todos os colegas daquele tempo e daqueles bancos, médicos, advogados, engenheiros, magistrados, presidentes de Clubes, de Entidades, da Boca, etc. D. Carola há muito desapareceu.
Sua imagem lembrada e perpetuada em nome de rua, marca uma página na História da cultura paranaense.
Da mestra e seus alunos, para tudo dizer, seriam poucas as muitas folhas de um livro. O livro que D. Carola merece.
Lauro Grein Filho é do Centro de Letras do Paraná.
A pacata Curitiba dos anos 40 oferecia poucas opurtunidades de " modernos" entreterimentos a garotada.
A pacata Curitiba dos anos 40 oferecia poucas opurtunidades de " modernos" entreterimentos a garotada.
Russo ou Polaco?
Sérgio Luiz Chautard
A pacata Curitiba dos anos 40 oferecia poucas opurtunidades de " modernos" entreterimentos a garotada.
Hoje comparando vemos o quanto perdemos em espaços livres de poluição, mas naquele tempo ainda não percebíamos o tesouro que dispúnhamos.
A grande novidade eletrônica era o rádio e os programas de auditório que geravam.
A PRB-2 tinha seu auditório na Rua Barão do Rio Branco e nele se acomodavam umas cento e cinqüenta pessoas que disputavam o previlégio de assistir programas ao vivo.
A variedade era grande e especialmente os programas de calouros que imitavam, localmente, a famosa Hora do Pato, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Existiam também sessões de cinema naqueles auditórios visando chamar mais gente para os já concorridos lugares.
Também pagava-se entrada variando o custo conforme a importância do que se apresentava.
Mas um dos programas mais disputados era, sem dúvida, o que dirigia à platéia diversas perguntas premiando o acertador.
Grupos se organizavam para responder corretamente e faturar os prêmios.
Muitos prêmios eram em dinheiro de cinco a cincoenta mil réis, verdadeiras fortunas.
Outros prêmios eram em espécie e de uma variedade incrível.
Além das perguntas normais sobre futebol, história, geografia, etc, haviam algumas que consistia em o contra-regra, na sala de comando da rádio, tocar parte de um disco, normalmente música, autor, etc, enfim perguntas sobre música e seus executantes eram usuais.
Uma das indústrias que ajudavam nos prêmios em espécie era a já vitoriosa Todeschini que sempre oferecia "cinco quilogramas da bala de ovos Rainha". Numa dessas ocasiões em que o prêmio eram esses quilos de balas a pergunta arremessada à platéia foi:
"O violinista Alexander Brailovski é russo ou polaco?"
Imediatamente o auditório separou-se em dois grupos ululantes que respondiam simultaneamente "Russso", "Polaco" um verdadeiro pandemonio sob a batuta do animador que ia, sorridente, recebendo as duas únicas respostas aparentemente possíveis.
No meio daquela selva de braços erguidos existia o de um garoto que nada dizia mas pedia a palavra por gestos e que acabou sendo notado pelo animador que esperando prolongar a festa, fez a opção: disse "Vamos ouvir o garoto ali".
- Não sei se é russo ou polaco mas Alexandre Brailovski não é violinista e sim pianista.
Fui vaiado, cuspido, xingado, mas levei meus cinco quilos de bala.
Anos mais tarde tive o prazer de assistir a um concerto de piano, no Municipal do Rio, com o meu ídolo de então.
Nunca mais, porém após aquela vitória, consegui gostar de bala de ovos!
Sérgio Luiz Chautard é técnico industrial, professor e sindicalista.
O Açougue do mathias Carlos Roberto A. dos Santos Na 2a metade do Séc. XIX, o Império brasileiro vivia assolado pela carestia de gêneros alimentícios.
Carlos Roberto A. dos Santos
Na 2a metade do Séc. XIX, o Império brasileiro vivia assolado pela carestia de gêneros alimentícios. A Província do Paraná, ainda em fase de gestação de sua estrutura de produção agro-alimentar, encontrava-se em crise que parecia ter aspectos permanentes: preços elevados, baixa produtividade e má qualidade dos alimentos, e outros.
A carne verde não era considerada gênero de primeira necessidade, ainda que houvesse forte demanda da população pelo tabelamento dos preços a fim de evitar as especulações.
Nesse sentido se explica, em parte, a intervenção do Estado no abastecimento e comércio de alimentos no Paraná.
O universo da carne verde envolvia interesses diversos: da parte do Governo, dos criadores, dos intermediários e dos comerciantes, face aos ditames do capital comercial em expansão na Província.
A regulamentação do sistema de produção e comércio da carne era atribuição das Câmaras
Municipais, cujos dispositivos constituíam heranças da legislação colonial.
Em Curitiba, a preocupação em responder à demandas da população por carne de boa qalidade, barata e abundante, levou a Câmara Municipal a estabelecer "Posturas", que previam multas para as seguintes contravenções: vender carne de rês cansada, mordida por cobra ou morta de causa desconhecida; matar e esquartejar o gado fora do matadouro público; expor a carne fora dos portais do açougue; expor a carne por mais de 2 horas após a morte da rês; usar machado para separar os ossos, em substituição a serra ou serrote legalmente permitidos; faltar com o devido asseio nos cepos onde se cortava a carne; usar peso de pedra, foras das especificações, em substituição aos pesos de chumbo, ferro ou bronze legalmente permitidos.
De acordo com o jornal "O 19 de Dezembro", na Província do Paraná era evidente o monopólio sobre a carne e o peixe: em Curitiba o comércio da carne era denominado pelos açougueiros alemães e em Paranágua o mercado de peixes era controlado "pelo Eg-ino e sua patuléia".
Em 1877, em Curitiba, sob a administração do Mathias rompeu com a carestia e penúria de carne e com o monopólio estabelecido pelos açougueiros alemães, baixando o preçodo kilograma de 280 para 200 réis. A atitude do Mathias foi muito bem acolhida pela população curitibana, fazendo aumentar consideravelmente a sua freguesia.
Tal situação lecou os alemães a baixarem o preço da carne, no sentido de i-gualar aquele sustentado pelo Mathias.
A população curitibana demonstrando plena consciência do ato praticado pelo Mathias, passou a lhe oferecer todo o apoio visando a manutenção do preço fixado, pois sabiam que "se os alemães também vendem-na por semelhante preço é só enquento e-xistit aquele emulo.
Sustentemos este que a carne não subirá; desapareça este que lá virá os 280 e quem sabe, os 320 réis".
Na verdade o ato do Mathi-as buscava atingir uma espécie de cartel de comércio de carne verde (inclusive alguns vereadores eram comerciantes de gado), puxando os preços para baixo e rompendo com o tabelamento estabelecido pelos açougueiros alemãs a partir de uma situação de pico dos preços.
Portanto, em Curitiba, o ato isolado do Mathias trouxe repercussões importantes para o abastecimento e comércio da Capital, até então caracterizados pela car-estia e penúria de alimentos. E a conjuntura de curto prazo, de preços baixos, só pode ser mantida com a devida solidariedade manifestada pelo povo curitibano.
Desta maneira, o exemplo do passado realça hoje, na comemoração dos 300 anos de Curitiba, a ausência de dois ingredientes básicos: a ousadia do Mathias e o apoio popular.
Carlos Roberto A. dos Santos é professor titular em História do Brasil e Pró-Reitor de Pesquisas e Pós-Graduação da UFP



