domingo, 9 de abril de 2023

BAR E CAFÉ GUAIRACÁ

 BAR E CAFÉ GUAIRACÁ


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BAR E CAFÉ GUAIRACÁ
O Guairacá era um tradicional ponto da avenida Luiz Xavier e foi inaugurado em 1928, quando no edifício do Palácio Avenida instalou-se a Casa do Mate, sob o patrocínio do Instituto do Mate, para funcionar como uma requintada confeitaria que fizesse "jus à então nobre erva".
Foram vários os seus proprietários. Willian Winkel a administrou nos tempos de casa sofisticada. Sucederam-se os Gaesel, Angelucci e Toledo, Campilongo, Barreto e Cordeiro. Sob os cuidados de Miguel Martins e Olímpio Soares, 'Guairacá' fechou as portas.
Universitários, intelectuais, políticos de expressão, militares da ativa e da reserva foram os assíduos fregueses do 'Bar e Café Guairacá', que mantinha-se sofisticado e ao mesmo tempo popular.
Ficaram famosas as brigas que ali ocorriam entre militares da PM e do Exército. E também dos civis valentões da Curitiba dos anos 40-50. [...].
Entre os muitos artistas que faziam do 'Guairacá' seu ponto de aperitivo diário: Bento Mossurunga. Cabeleira branca, tranqüilo, geralmente carregando uma pasta com partituras, passava horas no bar, tomando seu chope gelado - exigência rigorosa! Mossurunga considerava o poema sinfônico 'Guairacá' como uma das suas melhores obras. Mas não o fez em homenagem ao decantado endereço etílico da Avenida. É uma outra história ...
O Bar e Café Guairacá servia doces, sorvetes, petiscos, pizzas, pratos à la carte de "excelente qualidade", na opinião do entrevistado sr. Nireu Teixeira. Ele lembra que na Guairacá havia um trio de cordas que tocava, deixando o ambiente muito agradável. Havia também a "turma da Guairacá", um grupo de homens que costumavam se reunir para conversar e degustar os acepipes servidos.
A Guairacá, dentro da crônica curitibana passou por várias fases, desde o mais sofisticado salão de chá, na Belle Époque do final dos anos 20, até o restaurante- expresso, no final dos anos 70, quando teve seus dois últimos proprietários, emigrados portugueses que receberam na época Cr$ 800 mil de indenização do Bamerindus e fecharam o estabelecimento.
Durante cinqüenta anos, registrou momentos de vertiginosa evolução de Curitiba, instantes de glória da cinelândia, alegrias e tristezas escritas no tilintar dos copos ...
No dia 25 de maio de 1979, fechadas as suas portas 'Guairacá' recolhia para sempre farta documentação humana. Era meia-noite!
(Extraído de: memória digital.ufpr.br / tese de Maria do Carmo Marcondes Brandão Rolim)
Paulo Grani

FUNDAÇÃO DO RIO BRANCO SPORT CLUB DE PARANAGUÁ

 FUNDAÇÃO DO RIO BRANCO SPORT CLUB DE PARANAGUÁ


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Foto: riobrancosportclube.net.br
Diretoria, autoridades e atletas posam antes do jogo inaugural


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Jogadores e madrinhas posam antes do primeiro jogo.
Foto: riobrancosportclube.net.br

FUNDAÇÃO DO RIO BRANCO SPORT CLUB DE PARANAGUÁ
Histórica foto das antigas instalações do Sport Club Rio Branco de Paranaguá, da década de 1910, nas cercanias da Praça João Gualberto, onde hoje estão as instalações dos Correios e o INSS.
"A história do Rio Branco Sport Club começa no dia 12 de Outubro de 1913, dia comemorativo ao descobrimento da América. Em um bate papo envolvendo Manuel Victor da Costa, Aníbal José de Lima, Euclides de Oliveira, José de Oliveira, Jarbas Nery Chichorro, Antonio Gomes de Miranda e Raul da Costa Pinto, surgiu a conversa sobre esse novo esporte, “coqueluche” no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, e que já havia influenciado a criação dos dois primeiros clubes de futebol na cidade: Brasil Football Club e Paranaguá Football Club.
Surgiria o Rio Branco Sport Club no dia seguinte. Além dos nomes já citados e com a presença de mais alguns amigos ocorreu a aclamação de diretoria, com ata lavrada por Raul da Costa Pinto, tendo sido publicada a composição diretiva no jornal Diário do Commercio de 17 de Outubro, depois de uma reunião ocorrida na casa do Sr. Manoel Victor da Costa. Diretoria provisória: Presidente, Manoel Victor da Costa; Vice Presidente, Antonio Gomes de Miranda; Secretário, Jarbas Marques Mery Chichorro; Tesoureiro, Jose de Oliveira. O nome escolhido era uma justa e perfeita homenagem ao herói nacional, Barão do Rio Branco.
O PRIMEIRO JOGO
Houve também a escolha do primeiro time do Rio Branco: Jarbas, Nenê, Miranda, Lucidio, Ellias, Hugo, Luiz José, Mathias, Nero e Nagib. Da fundação até o primeiro jogo transcorreram mais de 30 dias e a escalação da estreia, contra o Brazil Foot Ball Club, mudou bastante, permanecendo só Mathias e Nagib daquele time original. Os novos integrantes eram Eugenio, Itaborahy, Raul, Rocha, Romeu, Cezario, Braga, Flota e Colombino. O jogo aconteceu dia 23 de novembro, na Praça Pires Pardinho (que ficava em frente à Santa Casa, local também conhecida por Campo Grande), tendo lotada a praça. Com um gol de cabeça, o Brazil saiu vencedor.
Em dezembro os sócios se reuniram na sede localizada à rua Marechal Deodoro, número 59, e escolheram sua diretoria definitiva. Foram eleitos e empossados: Presidente, Itaborahy de Macedo; vice, José Colombino; 1° secretário, Antonio Roza; 2° secretário, Nagib Balech; 1° tesoureiro, Angelo Perusin; 2 tesoureiro, José de Oliveira; orador, Raul da Costa Pinto; capitão, Mathias Lourenço; 2° capitão, Cezario Corriel e “Guarda Sport”, Lucilio F. do Nascimento.
O primeiro jogo contra uma equipe de fora aconteceu no dia 6 de janeiro de 1914, na Praça Pires Pardinho, enfrentado o América de Curitiba. Sabendo que o adversário levaria uma equipe mais forte do que o normal, o Rio Branco se uniu com o Brazil e o Paranaguá e formaram um time misto com os melhores jogadores da cidade: Osmario, Arcesio, Mendes, Zizo, Quinquin, Luiz, Nagib, Agostinho, Acrisio, Fernando e Soffiati. O grande goleador do Rio Branco foi Quinquin, que marcou três, mas o juiz anulou um porque estava “off-side”.
O PRÓPRIO CAMPO
O Prefeito Dr. Cetano Munhoz da Rocha outorgou ao clube uma área de alagadiço nas redondezas da Praça João Gualberto, no começo de 1914.
No mês de junho, os sócios organizaram uma grande quermesse na Praça Pires Pardinho para arrecadação de verbas e a previsão de inauguração era para abril de 1915. Até peça de teatro teve sua bilheteria revertida para as obras do novo campo e a construção das arquibancadas. Foram seis meses de trabalho para deixar o campo em condições de uso. O sócio-benfeitor José Fonseca Lobo, conhecido por Zézito, doou alguns vagões de madeira para a construção das arquibancadas de madeira.
A inauguração oficial ocorreu contra um selecionado de times de Curitiba, chamado de Team Extra, formado basicamente por jogadores do International e América. O Rio Branco venceu o confronto pelo placar de 2 x 1, com gols de Cardines e Lobo. A formação era a seguinte: Pedrinho; Azevedo e Marinho; Rosa, Eugênio e Manoel; Docelo, Caldeira, Lobo, Cardines e Coelho.
O clube ficou cerca de 10 anos nesse espaço, quando o então Presidente da Província do Paraná, Dr. Caetano Munhoz da Rocha informaria ao prefeito, Coronel José Gonçalves Lobo, que a cidade precisaria doar um terreno para a Construção da Escola Normal – atualmente Instituto de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha.
A área definida ficava em frente à área de fundos das arquibancadas do campo do Rio Branco e isso desagradou as autoridades da época, pois não consideravam adequado uma escola para meninas ficar “contemplando os fundos de uma praça de esportes voltada para o público masculino”.
NOVO CAMPO
A diretoria do clube então recebeu a proposta de mudança, comprometendo-se o município a doar um terreno na Estrada das Colônias – atual Alameda Coronel Elysio Pereira – para o novo estádio.
Efetivamente a doação do terreno aconteceu na gestão do prefeito Francisco Accioly Rodrigues da Costa, que também doou a importância de dois contos de réis (2:000$000) para que o clube pudesse providenciar a mudança para a nova sede, que hoje abriga o Estádio Nelson Medrado Dias.
O nome do estádio homenageia o Presidente do clube, Nelson Medrado Dias, agente do LLoyd Brasileiro, vindo do Rio de Janeiro e apaixonado pelo futebol. Em sua gestão teve início o projeto de construção do novo campo em meados de 1924, tendo concorrido o prazo de aproximadamente 6 meses para arrecadação de fundos para ás primeiras obras, que começaram em 1925.
Com seu prestígio no comércio local e na política, apesar daqueles que trabalhassem contra, arrecadou fundos e mandou aparelhar o terreno e iniciar a construção das arquibancadas e quase dois anos depois, em 12 de Junho de 1927, era inaugurada a “Praça de Esportes” Nelson Medrado Dias, que até hoje é a sede do clube e seu campo de futebol.". - (Compilado de: riobrancosportclub.net.br).
Paulo Grani.

A MINA DE MERCÚRIO " Era o final da década de 1940 e o bairro da Água Verde, naquela época, não merecia destaque na cidade.

 A MINA DE MERCÚRIO

" Era o final da década de 1940 e o bairro da Água Verde, naquela época, não merecia destaque na cidade.


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A MINA DE MERCÚRIO
" Era o final da década de 1940 e o bairro da Água Verde, naquela época, não merecia destaque na cidade. Além do estádio do Atlético e do time do Água Verde, a infra-estrutura urbana resumia-se a umas três ou quatro ruas pavimentadas. Mas foi esse o cenário de inusitado acontecimento, que ganhou destaque na imprensa local - "O dia em que jorrou mercúrio em Curitiba".
Foi na rua Coronel Dulcídio, entre a rua Brasílio Itiberê e a Avenida Getúlio Vargas. Existiam ali várias casas de madeira, todas pequenas e mal cuidadas, que por estarem enfileiradas umas atrás das outras, foram apelidadas de "Vagão". A construção vizinha era imponente residência de alvenaria, de propriedade de destacado funcionário da 'Antisardina', indústria de cosméticos local. Ele era chamado de 'Seo Zizi' e conhecido por gozar de vida bastante diferente dos outros moradores da região.
Naquela manhã o local do 'Vagão' amanheceu efervescente. A garotada que aproveitava a tranqüilidade do local para brincar na rua, foi surpreendida quando viu o chão de terra batido coberto por pequenas gotas de metal líquido, difíceis de se pegar com os dedos. Um, mais esperto, agarrou uma bolinha com a ajuda de uma colher. Aos poucos descobriu que ela podia aumentar de volume se fosse misturada com outras gotículas.
Alguém disse que era mercúrio, igualzinho aquele líquido que fica enfrascado, dentro dos termômetros. A noticia correu: 'Apareceu uma mina de mercúrio no Água Verde'. Poucas horas depois era grande o número de curiosos a observar a criançada ciscando a terra, enchendo vidros e vidros de remédio com bolinhas de mercúrio.
Mas o momento apoteótico ainda estava por vir. Foi quando uma moradora precipitou-se de encontro à valeta que, à frente do 'Vagão', separava o passeio da rua. Era ali que caia a água usada na lavagem dos pratos, panelas e roupas dos moradores das redondezas. Foi um estardalhaço. A senhora retirara, em meio ao líquido grosso e pestilento, meia garrafa (daquelas usadas para guardar leite antigamente) cheinha de mercúrio.
As rádios adoraram a notícia: 'Descoberto em Curitiba um veio de mercúrio'. Deu até no repórter Esso, glória maior dos noticiários. Mas pena que a alegria durou pouco. 'Culpa do Seo Zizi ?'
Conta-se que o endinheirado morador afanava o mercúrio da empresa em que trabalhava. Depois de uma dessas incursões, logo ao chegar em casa, deu uma de atrapalhado e derrubou no chão o produto do roubo. Foi mercúrio por todo lado, principalmente para dentro da valeta.
Os gozadores da época não perderam tempo. Na mesma noite cercaram o local e puseram uma placa de papelão: 'Propriedade da Prefeitura'. Não esqueceram também de derramar no local uma mistura de água com pó de alumínio (muito usado pelas mulheres para passar na chapa do fogão a lenha). Sob a claridade da rua, o alumínio dava a impressão de que a valeta era um cascata de mercúrio.
Ao final do outro dia todas as minúcias do 'grande acontecimento' já haviam sido descobertas e tudo voltava à rotina normal. Tudo igual, como era antes.
Menos para o "Seu Zizi", que ficou sem o emprego e teve que mudar de bairro."
(Escrito por: Diniz Bonilauri (publicitário e artista plástico) / Extraído de: Trezentas Histórias de Curitiba)
Paulo Grani

ARROZ FAROFA DIVINO PARA CHURRASCO

 

ARROZ FAROFA DIVINO PARA CHURRASCO


INGREDIENTES

  • Arroz pronto (de ontem)
  • 1 cebola
  • 4 dentes de alho
  • Bacon picadinho
  • Lingüiça defumada picada ou calabresa
  • 1 cenoura
  • 1 xícara de azeitona verde picada
  • Salsinha
  • Farofa pronta
  • MODO DE PREPARO

    1. Frite o bacon picadinho sem óleo, pois o bacon solta bastante óleo.
    2. Depois de frito, junte a calabresa, a cebola e o alho.
    3. Em seguida junte a cenoura ralada no ralo grosso, a azeitona e a salsinha.
    4. Reserve.
    5. Peque o arroz que já está pronto, se estiver pronto a bastante tempo é mais fácil de misturar.
    6. Coloque o arroz numa travessa grande, jogue sobre o arroz o refogado que já está pronto.
    7. E vá juntando a farofa de mandioca pronta (aquela que vende em qualquer supermercado, da marca yoki, kitano), até virar uma farofa.
    8. Vai quase o pacote todo (depende da quantidade de arroz que tem).
    9. Não acrescente sal no refogado, pois essa farofa de mandioca pronta, já vem salgada o suficiente.
    10. Está pronta uma deliciosa farofa e um delicioso arroz para servir com churrasco.

CHURRASCO NA PANELA DE PRESSÃO

 

CHURRASCO NA PANELA DE PRESSÃO

INGREDIENTES

  • 1 peça de picanha
  • 1/2 kg de linguiça toscana ou de porco
  • 2 batatas médias
  • 1 pimentão médio
  • 1 cebola média
  • 200 gr de bacon
  • 3 tomates
  • carvão suficiente para encher o fundo da panela
  • papel alumínio
  • espetinhos de madeira
  • sal e ajisal à gosto
  • tempero para grill
  • ervas de sua preferência (manjericão, açafrão, alecrim, hortelã, sálvia, tomilho, louro etc)
  • MODO DE PREPARO

    1. Coloque o carvão sobre o papel alumínio, acrescente as ervas, enrole bem, com três ou quatro voltas, de modo que fique bem protegido.
    2. A seguir coloque no fundo da panela.
    3. Corte a picanha ao meio, reserve o pedaço da ponta e corte o pedaço maior em pedaços para fazer os espetinhos, tempere com sal, agisal e uma pitada de tempero para grill.
    4. Reserve a linguiça.
    5. Corte os demais ingrediente no tamanho adequado para fazer os espetinhos, tempere a gosto e reserve.
    6. Monte os espetinhos com a carne e os demais ingredientes, combinando como mais lhe agradar.
    7. Coloque a metade inteira da picanha no centro da panela, sem encostar nas beiradas.
    8. Acrescente a linguiça nas laterais, bem encostadas na panela.
    9. Coloque por cima os espetinhos, sem encostar na panela.
    10. Tampe a panela e leve ao fogo alto até pegar pressão, assim que pegar pressão deixe no fogo baixo por 20 minutos.
    11. Retire a pressão e sirva, está pronto seu churrasco!

    INFORMAÇÕES ADICIONAIS

    • Outras opções de carnes: frango, leve ao fogo por 30 minutos; e porco por 40 minutos. Pode-se escolher somente um tipo de carne ou espeto, mas é obrigatória a presença da linguiça para temperar os demais ingredientes. Bom apetite.

sábado, 8 de abril de 2023

Benzedeiras em Curitiba: trabalho das rezadeiras está valorizado após a pandemia de covid-19

 

Benzedeiras em Curitiba: trabalho das rezadeiras está valorizado após a pandemia de covid-19

Nely Borges, de 84 anos, continua atendendo em sua casa.
Escrito por Maria Luiza Piccoli
A gente já falou delas aqui na Tribuna. Curiosamente, para esta nova matéria – 4 anos depois da primeira – demos uma pesquisada rápida no Google o termo “benzedeira”, para refrescar a nossa memória. Aparentemente, o assunto “hypou”, ou seja, bombou na internet. Pelo volume de conteúdos publicados sobre o tema recentemente em portais e veículos importantes de todo o Brasil, o receio que tivemos em nosso primeiro contato com elas, já não tem mais motivo de ser. Se antes achávamos que as benzedeiras em Curitiba corriam risco de extinção, depois de dois anos de pandemia, parece que – mais do que nunca – o trabalho das senhorinhas rezadeiras está sendo valorizado. Afinal, só mesmo com muita fé pra superar todo esse caos em pleno 2022!
Desde 2018, quando publicamos sobre as benzedeiras pela primeira vez, muita coisa aconteceu. Reportagens, documentários, programas de televisão e eventos públicos: todo mundo queria saber delas. Em alguns municípios, inclusive, teve repórter que conseguiu localizar a “nova geração” de benzedeiras – ainda tímida é verdade – porém com suas devidas representantes já na faixa etária da “geração Z”.A gente até tentou, mas ainda não conseguimos encontrar em Curitiba, uma benzedeira com menos de 50 anos. Diferente não poderia ser. De fato, em todo o nosso estado, não existem benzedeiras jovens. Quem nos contou foi Taísa Liwitzki, antropóloga, pesquisadora e entusiasta do ofício das benzedeiras no Paraná. Apegados à tradição e à curiosidade dos nossos leitores então, fomos conversar com algumas destas senhorinhas pra saber como anda a fé do curitibano, como têm sido a rotina de rezas pós-pandêmica e, é claro, matar um pouco das saudades.

Atendem o telefone. Peço pra falar com a dona Nely. “Agora ela tá benzendo”, diz a pessoa do outro lado. “Quer deixar recado?”. Explico o motivo da ligação. Descubro que quem atendeu foi a secretária da dona Nely, que teve que ser contratada devido à altíssima procura pelos serviços da benzedeira nos últimos anos. “Agora, segunda a sexta só com hora agendada. Sábado por ordem de chegada”, explica. Enquanto falamos, dona Nely termina o serviço. Meu tempo é curto. Dona Nely lembra-se da reportagem da Tribuna. Há 4 anos, ela foi uma das rezadeiras que entrevistamos e, desde então, muita coisa mudou. Agora viúva, Maria Nely Borges, de 84 anos, continua atendendo em sua casa porém, com a ajuda da secretária já mencionada.Com o mesmo tom de voz sereno e bom-humor, ela conta que a procura por seus serviços triplicou desde que nos falamos pela última vez. “Teve gente de São Paulo, do Rio, dos Estados Unidos e até da Alemanha que veio atrás mim”, conta. “Teve até caso de vida ou morte, que fui atender pessoalmente”. Pra quem não se lembra, Nely era a benzedeira no Cajuru, em Curitiba, cujo trabalho é reconhecido pelo padre da paróquia que frequenta, situada no mesmo bairro. “Antes vinha muito caso de minguá, rasgadura… depois da pandemia é muita insônia, dor no peito. Muita carga negativa e desespero pela situação financeira”, revela. Os remédios? “Benzo três vezes com arruda, espada de São Jorge e alecrim. E pra finalizar, mando tomar banho de ervas”, explica.

“Receita” semelhante é a de Agda de Andrade, 77. Benzedeira há mais de 40 anos no município de Rebouças, na região dos Campos Gerais, ela atende uma média de 6 a 8 pessoas por dia, além de estar à frente grupo Aprendizes da Sabedoria, que reúne benzedeiras paranaenses espalhadas pelo estado. Formado em 2008, o grupo promove a troca de saberes e experiências e é considerado a primeira entidade representativa das rezadeiras do Paraná.

Nely é  benzedeira no Cajuru, em Curitiba, cujo trabalho é reconhecido pelo padre da paróquia que frequenta, situada no mesmo bairro.
Nely é benzedeira no Cajuru, em Curitiba, cujo trabalho é reconhecido pelo padre da paróquia que frequenta, situada no mesmo bairro. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná.

“Até formarmos o grupo, muitas benzedeiras tinham medo de se apresentarem, de irem presas. São senhoras simples, muitas são analfabetas. Agora temos um espaço seguro para trocar experiências, ensinar remédios e ervas”, conta.

No desempenho do ofício desde os 20 anos de idade, Agda aprendeu as práticas de cura com o pai, que também era rezador. “Foi ele que me ensinou sobre as plantas e como extrair os xaropes, as tinturas e remédios”, relembra. Assim como dona Nely, Agda nos conta que nos últimos dois anos, os rescaldos da pandemia impactaram de maneira significativa a saúde da população. “É muita carga negativa. As pessoas estão mais ansiosas, mais deprimidas. Isso reverbera em todo o organismo e é por isso que – muitas vezes – a pessoa até vai ao médico mais não consegue encontrar a raiz do problema. Porque a doença não está no corpo, mas na alma”, diz.

Com grande volume diário de atendimentos, Agda é a rezadeira certa, no lugar certo. Ela mora defronte a uma escola primária, em Rebouças, e diz que a maior parte de seus “pacientes” são os pequeninos do estabelecimento à frente. “Os pais buscam as crianças e já aproveitam pra benzer”, revela a rezadeira que possui todos os remédios de seu arsenal, no próprio quintal de sua casa. “Aqui tem de tudo que você pode imaginar. Ultimamente tenho usado muito espinheira santa, que serve pra alívio de dores no trato digestivo. Não é pra menos. Nosso emocional se concentra totalmente nessa região do corpo”, revela.

Segundo a benzedeira, a perpetuação de tais conhecimentos tem ganhado mais espaço – mesmo que timidamente – entre os jovens. “Nas plantas tem remédio pra absolutamente tudo. O problema é que as pessoas não têm tanto interesse em aprender sobre práticas naturais, tendo os medicamentos químicos disponíveis nas farmácias”, lamenta. E é por este motivo que o coletivo Aprendizes da Sabedoria tem se empenhado em promover eventos e divulgar seu trabalho.

O grupo, organizado com a ajuda da antropóloga, Taísa Liwitzki, foi o primeiro a mapear as benzedeiras do Paraná, por exemplo. Segundo o levantamento, somente naquele ano, cento e trinta e três benzedeiras estavam ativas no município de Rebouças. Foi também por intermédio da associação, que o trabalho das rezadeiras ganhou chancela oficial como “serviço de saúde pública”, pela prefeitura do município. O ofício foi ainda, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Paraná pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

“Existe um argumento no imaginário popular, que diz que as benzedeiras estão entrando em extinção. Isso não é verdade. Elas estão radicalmente vivas e têm um projeto de futuro. Popularmente, acredita-se que elas estão no passado, e correspondem àquele estereotipo da mulher mais velha, sacudindo folhas com um tercinho. Existem, é claro, as que correspondem ao perfil, mas existem também benzedeiras jovens, com outras profissões e que estão nas áreas urbanas. Há benzedeiras, inclusive, que se utilizam da tecnologia para benzer”, revela Taísa.

É isso mesmo. Como explica a antropóloga, a reinvenção chegou também às rezadeiras que, durante a pandemia, adaptaram-se, aplicando rezas e bênçãos por chamadas de vídeo e mensagens de texto. “Há muito tempo as benzendeiras já usavam cartas, bilhetes e recados para benzer. Hoje, elas benzem pelo celular. Inclusive pelo Whatsapp. Elas estão se modernizando para manter ativo seu papel nos dias de hoje”, diz Taísa.

>>>> Veja aqui o contato de Benzedeiras em Curitiba

Por intermédio de eventos e encontros, o coletivo de rezadeiras tem realizado palestras, rodas de conversa e workshops, na linguagem das benzedeiras – “troca de saberes”. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o grupo promoveu um encontro aberto ao público realizado no Museu Paranaense. “No último evento que promovemos em Curitiba, percebemos – por parte de um público bastante jovem e nichado – um interesse na lida com as plantas, produção de chás, pomadas e tinturas. É nesta nova geração que as benzedeiras do Paraná depositam sua esperança”, afirma Taísa. Por isso, segundo a antropóloga, é importante que os interessados participem e busquem compreender sobre tais práticas.

Então resta a pergunta: qual será o futuro das benzedeiras? Será que este é um ofício fadado a acabar? Sobre isso, tanto a antropóloga quanto elas próprias concordam: está longe de acontecer. “As mais jovens não querem aprender. Mas isso é dom, mesmo que você não queira. Ter paciência com crianças, lidar com as plantas, isso é dom. Muita gente descobre depois e resolve usar pelo bem comum”, afirma dona Agda. Já Taísa vincula a função das senhorinhas à própria identidade da nação. Quase como se as benzedeiras colocassem o Brasil no colo. “É terapêutico. Elas olham pra você, ouvem seus problemas. Conhecem as mazelas e sofrimentos das comunidades onde moram. Sabem mais do que ninguém o que aflige esta e aquela família. Na hora da bênção, elas sabem direcionar, por meio da fé, aquilo que se busca. As benzedeiras representam o “cuidar coletivo”. Quando cuidam de uma pessoa, elas estão cuidando de todos”, ressalta Taísa.

Céu também é delas! Conheça a única copiloto do Grupamento de Operações Aéreas da Polícia Civil do Paraná

 

Céu também é delas! Conheça a única copiloto do Grupamento de Operações Aéreas da Polícia Civil do Paraná

Escrito por Maria Luiza Piccoli
Na rotina dominada por homens, Daiane Zanon, 40, já nada – ou melhor – voa de braçada. Há dez anos atuando como investigadora na Polícia Civil do Paraná (PCPR), a agente assumiu no mês de maio, o posto de copiloto no Grupamento de Operações Aéreas (GOA) da PCPR, situado no bairro Bacacheri, em Curitiba. Única mulher a assumir o cargo na organização, Zanon é a representação da tímida presença feminina num mercado composto, na sua maioria esmagadora, pelos homens. Em conversa com a Tribuna, a copiloto contou um pouco de sua história, chamando a atenção para a importância da abertura de espaço para as mulheres na aviação nacional.A diferença é extravagante. Segundo dados apurados e divulgados no mês de março pela empresa EasyJet, de todos os pilotos de avião em atividade, em todo o mundo, apenas 6% são mulheres. No Brasil, o último levantamento da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), publicado em 2017, mostrou que – no país – apenas 41 mulheres atuavam como pilotos comerciais. Número irrisório, comparado aos quase 5 mil pilotos do sexo masculino registrados no mesmo setor naquele ano. Desde então, centímetro a centímetro, a presença feminina vem crescendo no espaço aéreo brasileiro. Motivo de orgulho para quem vê de fora, e de responsabilidade para quem vê de dentro.Assim descreve a investigadora da Polícial Civil do Paraná, Daiane Zanon, quando perguntada sobre como enxerga seu novo cargo. À frente da copilotagem do Grupamento de Operações Aéreas (GOA), Daiane, junto com outros dois agentes da organização, passou pelo curso para formação de pilotos comerciais no início deste ano, tornando-se uma das únicas integrantes da organização capacitadas a empregar o avião bimotor – utilizado nas missões da polícia judiciária. Mais que grande conquista, a ascensão ao cargo, segundo Daiane, é sonho realizado. “A aviação era meu sonho de infância. Desde bem pequena meu maior desejo era estar pelos ares. Só que ao contrário do glamour das ‘aeromoças’ eu me enxergava pilotando os aviões”, conta.
Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Foram anos de preparo que, a princípio, quase “morreram na praia”. Formada em ciências aeronáuticas, Daiane teve de abrir mão da pilotagem logo após a graduação. “Quando me formei eu tinha toda a força de vontade necessária para decolar. Literalmente. Só que quando entrei no mercado, percebi que a profissão exigia altíssimos investimentos e que o resultado vinha a longo prazo. Sem ter como arcar com os custos deste início de carreira, acabei engavetando este sonho e comecei a estudar para concurso público”, relembra.Ainda assim, enquanto conciliava os estudos da graduação aos do concurso – Daiane tirou do próprio bolso os recursos para o aprimoramento necessário à atuação como piloto. Fez curso teórico, prova teórica, obteve o certificado médico aeronáutico e realizou a prova da ANAC, que chancela os aspirantes ao exercício da profissão. Até aí, a então estudante, acumulava dezenas de horas de voo prático.

“Nessa etapa tive contato ainda mais aprofundado com a realidade da profissão e pude concluir que, sim, ainda é um segmento extremamente masculino”, revela. Para concluir os estudos, legitimar suas primeiras horas de voo e se formar piloto, Daiane optou por ignorar piadinhas e comentários indecorosos. Sobre o machismo no mercado da aviação, porém, ela não passa pano. “Tem machismo sim, como todo o segmento do mercado de predominância masculina ou não. Eu mesma já ouvi a piadinha sem graça do: ‘mulher só serve pra pilotar fogão’. Mas nunca dei bola pra esse tipo de coisa e sempre me posicionei pra que não me rebaixassem”, afirma.Em 2010 então, Daiane dava mais um grande passo – mesmo que não soubesse – em direção à sua vocação. Aprovada no concurso da Polícia Civil, dentro de dois anos, ela seria nomeada investigadora da PCPR. Convidada a integrar o setor administrativo do GOA, em 2020, a investigadora já sabia que, cedo ou tarde, alçaria voos ainda mais altos. “Atuar na Polícia Civil é minha paixão. Quando eu soube que a própria organização viabilizaria o curso de pilotagem comercial, eu quase não coube em mim de tanta alegria. Era meu sonho que virava realidade. Finalmente!”, conta.

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Ao lado de outros dois investigadores, os policiais, Jaime Pacífico Urdiales e Santos Dumont de Menezes Júnior, Daiane completou o curso para condução de aviões multimotores, em Santa Catarina. “A formação foi feita pela escola Voe Floripa entre janeiro e abril deste ano. A PCPR custeou todo o curso e ao todo, nós cumprimos 120 horas de aulas práticas em aviões, além da instrução em simuladores de voos de aeronoves multimotoras, por instrumento”, conta.

Para a copiloto, o momento mais emocionante da escalada até o atual posto, foi a prova prática, na qual o aluno realiza o primeiro voo solo. “É você e a aeronave. Absolutamente tudo depende de você nessa hora. A conclusão do primeiro voo solo é marcante para todo o piloto. Pra mim não foi diferente”, revela.

Desafios

Sobre os desafios de atuar num mercado cuja representação masculina é de 96%, a policial pondera: se você é mulher, planeje-se. Isso porque, segundo ela, as exigências da profissão demandam dedicação integral o que, para muitas profissionais que sonham em ser mães, pode representar fator de ‘concorrência’.“Quando me perguntam sobre os obstáculos da profissão – além é claro do alto investimento financeiro – minha resposta é sempre esta: ser mãe e dedicar-se à profissão pode ser mais desafiador quando em comparação às mulheres que não têm filhos. Porém, se essa é sua vocação e seu sonho é ser piloto, não desista! É preciso estimular cada vez mais as mulheres a ingressarem na aviação. Temos que trabalhar para quebrar esse paradigma que diz que este mercado é dos homens e para os homens”, ressalta.

Para quem está no começo da jornada, Daiane recomenda: “primeiro precisa querer muito. E, então, se dedicar. Ficar longe de casa, da família e mudar-se de cidade também não pode ser problema. Mas no fim, estar acima das nuvens faz tudo valer a pena. O céu lá de cima, também merece o olhar das mulheres”, finaliza.

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná