quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Legenda na B.I.D.: "Brasil - Estado Paraná"/"E.F. Paranaguá - Curitiba"/"ramal Antonina KM. 4.700"/"Rio Sapitanduva - Serra Marumbi"

 Legenda na B.I.D.: "Brasil - Estado Paraná"/"E.F. Paranaguá - Curitiba"/"ramal Antonina KM. 4.700"/"Rio Sapitanduva - Serra Marumbi"


Antonina, Rua Dr. Mello

 Antonina, Rua Dr. Mello


R. Barao de Antonina, calcamento. Ao lado, esquina com a Mateus Leme, o muro do Paco dos Arcebispos - Pontificado de D. Atico Euzebio da Rocha

 R. Barao de Antonina, calcamento. Ao lado, esquina com a Mateus Leme, o muro do Paco dos Arcebispos - Pontificado de D. Atico Euzebio da Rocha




Rua Barão de Antonina, esquina com Avenida Cândido de Abreu.


Vista da Avenida Marechal Floriano Peixoto esquina com a Rua XV de Novembro, onde ve-se o predio onde funcionou o Louvre Curitibano

 Vista da Avenida Marechal Floriano Peixoto esquina com a Rua XV de Novembro, onde ve-se o predio onde funcionou o Louvre Curitibano


Vista aérea da Av. Marechal Floriano Peixoto, no trecho da rua Baltazar Carrasco dos Reis, Almirante Goncalves, Brasílio Itibere e Engenheiros Rebouças. Aparece no canto superior direito a praca Afonso Botelh. Imagem de 1952- 1953

 Vista aérea da Av. Marechal Floriano Peixoto, no trecho da rua Baltazar Carrasco dos Reis, Almirante Goncalves, Brasílio Itibere e Engenheiros Rebouças. Aparece no canto superior direito a praca Afonso Botelh. Imagem de 1952- 1953


Em primeiro plano a Av. Sete de Setembro e no lado direito da foto o final da Av. Visconde de Guarapuava. Mais adiante vê-se as dependências da Fábrica Cini. À esquerda, o Colégio Rio Branco. Ao fundo, a região da rua Carlos de Carvalho, Vicente Machado e o bairro Bigorrilho, início da década de 1950

 Em primeiro plano a Av. Sete de Setembro e no lado direito da foto o final da Av. Visconde de Guarapuava. Mais adiante vê-se as dependências da Fábrica Cini. À esquerda, o Colégio Rio Branco. Ao fundo, a região da rua Carlos de Carvalho, Vicente Machado e o bairro Bigorrilho, início da década de 1950


Histórias de Curitiba - Nêga Balão

 

Histórias de Curitiba - Nêga Balão

Nêga Balão
Odilon de Oliveira Carneiro

Curitiba sempre teve através dos tempos, entre sua gente, figuras populares que marcaram época por suas estrepolias, singularidades, reações hilárias, outras violentas, apalhaçadas às vezes, inteligentes, poucas.
De minha infância de Maria Pelanca, adolescência de "Ca-chorrinho", mocidade de "Caju Pé de Bicho", maturidade de "Gilda", lembro até hoje, com um misto de saudade e pavor, da estupenda e impetuosa Nêga Balão.
Preta retinta, bonduda, sempre séria mas com dentes alvos e lindos nos seus raros momentos de sorrir.
Alcoolizada e provocada, virava o dêmo. Aí, sai da frente.
De certa feita, o meu irmão Zé Carlos chegando em casa encontrou a nossa vó Brasília bastante satisfeita, aos risos e pulinhos.
Até que enfim, disse ela, havia encontrado uma empregada asseada, trabalhadora e que tudo levava a crer, ótima de forno e fogão.
Meu irmão, curioso, foi até a cozinha para dar uma olhada na cuja.
Voltou apavorado.
- Vó, a senhora empregou nada mais nada menos que a famosa e perigosa Maria Balão.
Sem se perturbar, foi a saudosa senhora até perto da recém-empregada e, observando-a bem, notou se tratar na verdade de pessoa um tanto estranha e algo lhe disse não se tratar de flor de bom aroma. O susto foi grande ao perceber, por baixo da blusa que vestia, a ponta de uma faca.
Com bastante jeito, pediu para a preta ir comprar no armazém do Zé Cisac, na Praça Zacarias, arroz, feijão ou sei lá o quê.
Ao ultrapassar a porta que dava para o corredor de saída, minha avó, ágil e esperta, fechou e trancou a mesma.
Aí começou a inana.
Maria Balão, aos berros e impropérios, dava murros e pontapés violentíssimos na porta que, demorasse um pouco, seria arrombada.
Os habitantes da casa, todos nós e até o gatinho de estimação, das janelas da frente da casa, clamávamos por socorro.
Um guarda que fazia a vigilância do Grupo Anexo, em frente de nossa residência, atendendo aos rogos que fazíamos em desespero, enfrentou a negra furiosa "no braço" e no exato momento em que a mesma começava a puxar o facão que portava. Nêga Balão, a famosa figura exótica de meus oito anos, foi presa.
Hoje, quase setentão, quando na Boca Maldita alguém me aponta alguém, dizendo se tratar de um tipo popular, dou um passo em ré, precavido.
Nêga Balão, dona dos palavrões e dos ódios.
Proprietária da anarquia, mas de dentes alvos e lindos, nos seus raros sorrisos.
Nêga Balão, figura lendária...

Odilon de Oliveira Carneiro é advogado e procurador de justiça aposentado

Histórias de Curitiba - Branca de Neve

 

Histórias de Curitiba - Branca de Neve

Branca de Neve
Renato Schaitza

A nova recepcionista nem era bonita.
Gordinha de comer X-burger no almoço, X-salada antes do Cursinho, fora as cervejadas na saída, se alguém convidasse. E as pernas eram marcadas com bolinhas vermelhas, picadas de mosquitos na espera do ônibus de Santa Felicidade.
Mas o escritório não guardava a regra saudável: onde se ganha o pão, não se come carne. A regra prevalente era cínica: inaugurar carne nova é privilégio do gerente.
Sabia-se, por inconfidência de outra funcionária, que o território já era mapeado. A moça nova sofria o rescaldo de um tórrido romance com um tenente do Corpo de Bombeiros.
Quem conta é o próprio gerente, inconfidências de botequim. A rapaziada do escritório já olhava para ele, cobrativa.
Mas que fazer? Ela saía para o Cursinho antes do final do expediente comum.
Premido pelo dever, inventou um jantar comemorativo lá em Colombo, lado oposto do covil da presa.
Caipirinhas, vinho sangue-de-boi, deu mais umas dançadas aconchegantes, passou a mão na moça, tirou da festa e saiu de fi-ninho. Só o office- boy enxergou e acenou, aprovador.
Conta o gerente, na retórica de boteco: "Na estrada dos Minérios tinha um dos primeiros móteis da região.
De madeira, pobre.
Parei o carro, ela nem falou -foi descendo com a naturalidade do traquejo.
Entramos, deitamos.
Nem caipirinha nem vinho que aqueciam o coração esquentaram aquele acolchoado de algodão, que de tão frio parecia uma pedra de gelo em cima da gente.
Carícias, impossível - as mãos pareciam pinças de gelo: um pegava, o outro pulava".
Conta ele que levou a invicta moça em casa, já de madrugada, naquele 17 de julho de 1975 em que Curitiba despertou branca de neve, na sua última nevada.
Na conversa do boteco, curiosidade:
- E você? Convidou a moça para outro programa num motel com calefação?
- Não.
Estava meio acanhado, sem coragem. E percebi que a rapaziada do escritório notou que alguma coisa tinha melado.
Ou não tinha melado.
Então eu mandei instalar uma lareira de ferro, aquelas da Muller £r Irmãos, bem na sala da recepcionista. A rapaziada entendeu. A moça também, porque dali a poucos dias 1a começar a semana de férias do Cursinho...

Renato Schaitza é jornalista

Histórias de Curitiba - O Polaco do Seminário

 

Histórias de Curitiba - O Polaco do Seminário

O Polaco do Seminário
Carlos Alberto Sanches

No vestibular de Direiro da UFPR de 1962, conheci o Paulo Leminski, já então aureolado pela fama de gênio.
Logo após, ele iniciava a carreira de professor de cursinho, onde lecionava com raro brilho várias matérias, exceto matemática.
Suas aulas eram socráticas: incomum não era os alunos irem buscá-lo e as aulas ocorrerem nesse ir e vir. O gorgo, Garcez de Mello, que o diga.
Começamos uma grande amizade, sedimentada pelo fazer poético.
Para mim, conhecer o Paulo foi uma trombada estética, pois minha formação tinha sido bastante clássica.
Enquanto ainda vagava pela nebulosidade de Cruz e Souza ou o surrealismo de Augusto dos Anjos, ele já saracote-ava pela modernidade de Pound, Joyce, Witmann, Oswald e outros.
Logo se transformou no nosso guru, com inteira justiça, porque já dominava várias línguas; lia grandes obras no original e fazia poesia maldita, as-soante. A Divina Comédia, O Laz-zarilho de Tormes, a Bíblia, a Eneida, O Paraíso Perdido eram o seu trivial.
Nesta fase, acompanhou-o outra sumidade: o Sérgio Zip-pin.
Os dois construiram no bairro do Seminário a fama de devo-radores de livros, enquanto o resto da garotada jogava bota.
Falava-se de uma plataforma nos ciprestes do Internato Paranaense, onde se refugiavam os bibliófagos.
O Concretismo já explodira em São Paulo e o Leminski se correspondia com os irmãos Campos e o Pignatari.
Recebemos a revista Noigandres do Grupo.
Foi um impacto fulminante, pelo menos para mim, cujo autor mais moderno era, na época, o Garcia Lor-ca.
O Paulo fundou na casa dele, na Rua Bispo Dom José n° 259, o núcleo Experimental de Poesia Concreta de Curitiba, com o Lélio Souto Maior e eu.
Começamos assim o mergulho naquela poesia que o proP Hélio Puglieli definiu adequadamente como uma "camisa de força", pelas limitações que impunha à criação poética, suprimindo-lhe a base metafórica e acentuando o seu caráter lúdico/
gráfico/ótico.
E fomos experimentando dizeres, formas, sons e cores, não líricos e antidiscursivos, numa arqueologia verbal, digna de Indiana Jones.
Mergulhamos a fundo na tradução/transcriação, essa aventura mágica que é a passagem de um código para outro.
Traduzimos John Donne, Mallarmé, Robert Browning, Poe e todos os malditos, "noirs", com os quais o Paulo se identificava.
Ia esquecendo o Rimbaud.
Tentávamos sacudir a província modorrenta com os solavancos da nova poesia.
Os jornalistas Aroldo Murá e, especialmente, o Aramis Mi-larch, puseram-se do nosso lado e foram, até muito depois, os responsáveis pelo espaço que a poesia vanguardista paranaense sempre teve na imprensa local.
Boa parte da dimensão nacional do Paulo se deve a eles.
Paulo debulhava o Finne-gan's Wake de Joyce, que surrupiara a Biblioteca Pública, num dos vários "roubos santos"de livros que cometíamos.
Depois, íamos a pé, sob o sol ralo de julho e sob a bru-
ma espessa da manhã, até a mítica biblioteca do Instituto Neo-Pi-tagórico, na Vila Isabel, para ver livros raros e esotéricos.
O laboratório continuava na velha casa do Seminário, mas Paulo começava a ganhar o mundo e eu me inclinava para o caminho da educação, onde estou até hoje.
Especialmente na pedagogia da linguagem.
Antes de morrer, o Paulo me consolava por ter parado de fazer poesia, dizen-do-me que havia tanta arte no jogo/dança do intelecto com a palavra como no fazer alguém percorrê-la e percorrer-se.
Dizia ele que a nossa única caminhada é a viagem que fazemos pela língua.
Depois de sua morte voltei a tentar os caminhos enviesados do poema.
Afastando-nos durante vários anos.
Encontros ocasionais.
Paulo decolou a partir do Catatau.
Vieram outros percursos.
Ainda moro no Seminário e, ao passar pela casa 2459, da Bispo D. José, vejo o Leminski, agitado, a criar e a aglutinar, entre as figuras discretas da mãe, do pai doente, do irmão juvenil, então Pedro, e os olhares emplastados de admiração de todos nós.
Num velho caderno de época, achei este discreto Hai-Kai rabiscado a quatro mãos:
"Ver passar os pássaros pelos espaços passo a pássaros"

Carlos Alberto Sanches é professor e poeta.

Histórias de Curitiba - A Curitibana que não falava português

 

Histórias de Curitiba - A Curitibana que não falava português

A Curitibana que não falava português
Eno Teodoro Wanke (in memorían)

É possível alguém nascer numa cidade brasileira, crescer, estudar, fazer vida social, ler jornais e livros, ir a reuniões, teatros, conversar com amigos, viver, enfim, sem saber dizer uma só palavra em português?
Na primeira metade do século XX isto era possível em Curitiba.
Foi o caso de Gabriela VVòlf Schaffer, nascida em Curitiba a 24 de março de 1875 e falecida em 1950, avó de minha mulher. A vida toda, só falou alemão!
E vejam bem: não se trata de uma obscura alemoazinha humilde, uma colona ilhada em algum recanto distante, sem contato com ninguém.
Durante toda sua vida teve muita representati-vidade social.
Para começar, ela era filha de Fredolin Wolf, industrial proprietário de uma serraria e de uma olaria no Barigüi, imigrado de Rõmmerstadt no Império Austríaco, na década de 1850, cujo nome está hoje perpetuado numa das avenidas da cidade.
Casou-se com Francisco Schaffer (1866-1954), cuja contribuição à cidade de Curitiba e ao Estado do Paraná na pecuária e na agricultura jamais será por demais exaltada.
Ele, igualmente nascido em Curitiba, recebeu de seu pai, o imigrante Johann Schaffer (também oriundo de Rõmmerstadt), em sociedade com seus irmãos João Schaffer Júnior e Ana (que depois se casou com Robert Weigert), um negócio à beira da estrada e um grande terreno no Pilarzinho . Em 1905, por afastamento de seus irmãos, estava sozinho na firma.
Em, 1910, encerrou o negócio e se dedicou à agropecuária.
Viajou com sua mulher Gabriela para a Argentina e depois para a Europa em busca de novas técnicas.
Fez experiências, como por exemplo o cultivo de parrei-rais para a produção de vinho -tendo chegado à conclusão de que o clima instável de Curitiba não se prestava a isso.
Cultivou trigo e produziu muita laranja para venda.
Foi apicultor.
Dedicou-se principalmente à produção de leite.
Introduziu no Brasil o gado Frísia Holandês.
Fundou, no centro da cidade, na Rua das Flores, a Leiteria Schaffer - até hoje tão conhecida, embora há muito tenha deixado de ser propriedade da família.
Enfim, transformou a Chácara Schaffer num estabelecimento modelar.
Embora amigo pessoal de diversos governadores, inclusive Afonso Camargo e Manoel Ribas, jamais recebeu auxílio do Estado para seu desenvolvimento.
Recebia e hospedava gratuitamente agrônomos e estudantes de agronomia de todo o Brasil para os quais, de bom grado, transmitia conhecimentos e técnicas.
Durante uma de suas visitas à Europa, ele e sua mulher Gabriela foram recebidos pelo Imperador da Áustria, Francisco José, do qual mereceu honrarias devido a sua colaboração prestada no intercâmbio Brasil-Áustria através do consulado de Curitiba.
Quando Odete Grohs, minha sogra, se enamorou do filho de Gabriela, Francisco Schaffer filho, a jovem Odete se viu obrigada a estudar alemão para poder se comunicar com sua sogra...
Não cheguei a conhecer dona Gabriela, a curitibana que morreu com 75 anos de idade sem falar uma única palavra em português.
Foi no dia de seu enterro que, pela primeira vez, estive na casa daquela que viria a ser minha namorada, Irma Schaffer, com quem sou casado há 41 anos.
Mas essa já é outra história...

Eno Teodoro Wanke foi engenheiro e escritor.