sábado, 27 de maio de 2023

Edifício Mapi: a história do ícone da arquitetura na orla paranaense

 Edifício Mapi: a história do ícone da arquitetura na orla paranaense

Quem esteve ao menos uma vez no balneário de Caiobá, no litoral do Paraná, percebeu a presença do emblemático Edifício Mapi, que se ergue ao lado do Morro do Boi, no limite entre a praia mansa e a praia brava.

Absolutamente racionalista, onde a funcionalidade transcende qualquer aparato estético, o prédio é multiuso e funciona como um apart hotel, pensado para curtas temporadas. “É um clássico da arquitetura moderna paranaense e a obra mais importante para a urbanização do balneário”, sentencia o professor de arquitetura da PUCPR Luis Salvador Gnoato.

Só poderia ter esse perfil dado a dupla que o assina: Adolf Franz Heep, arquiteto alemão que trabalhou com Le Corbusier, naturalizou-se brasileiro e atuou em São Paulo entre 1950 e 1960 consolidando um modelo vertical de morar; e o catarinense Elgson Ribeiro Gomes, que morou em Curitiba e em São Paulo e é um dos principais nomes do modernismo no Paraná, além de um dos fundadores do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR.

Linhas retas e efeito das venezianas que criam movimento na fachada.

Linhas retas e efeito das venezianas que criam movimento na fachada.| Rafael Schimidt

O arquiteto Péricles Varella Gomes, filho de Elgson, conta que o Edifício Mapi estava entre os preferidos do pai. “Foi o prédio que o fez voltar para Curitiba. A partir daquele momento ele desenvolveu seu escritório na cidade”, lembra.

A implantação do complexo, originalmente formado pelo edifício residencial, um restaurante panorâmico, parque de piscinas e um hotel, foi uma ousadia para a época, gerando grande impacto no mercado imobiliário local. “Pense: o que era o litoral do Paraná no final dos anos 1950? Praticamente vilas de pescadores. Os incorporadores Reynaldo Massi e Osman Pierri (construtora Mapi) foram de uma coragem extrema”, completa Gomes.

O projeto

Muitos detalhes chamam a atenção neste projeto de 1958 e 1959, de acordo com as plantas originais. A começar pelo visual para quem o olha da orla. O prédio de 14 pavimentos é um quadrado perfeito e as venezianas brancas de madeira de um metro de largura correm por fora sobre painéis de alvenaria. Em um andar o movimento acontece da esquerda para a direita; no outro, na direção contrária. Esse simples artifício garante um movimento quase caleidoscópico para a fachada.

Outra característica típica da arquitetura da época é o uso de pastilhas minúsculas de vidro como revestimento externo. Completa a área externa um mosaico assinado por Franco Giglio, italiano que veio para o Brasil e ajudou a estabelecer a arte musiva por aqui. Há incontáveis painéis de Giglio por Curitiba, incluindo os feitos em parceria com Poty Lazzarotto.

Lógica racionalista

Cada pavimento é composto por dez quitinetes e dois apartamentos maiores em cada ponta. A planta das unidades em maior número é algo muito racional. De um lado da porta de entrada, no mesmo nível do corredor, há uma pequena cozinha que estabelece uma divisão, por meio de um balcão para refeições, com a sala que fica em um nível mais elevado. Do outro lado de quem entra no apartamento há uma área de serviço que se liga com o banheiro e este com a área íntima, formada por dois quartos com beliche.Desta forma estabelece-se uma lógica de funcionamento. “A ideia de ter muitas unidades habitacionais o fez um edifício não elitista, uma arquitetura para o homem comum. Mais um traço do modernismo clássico”, atesta Gnoato.

Para favorecer a ventilação, a fachada é voltada para nordeste, de onde vem o vento predominante no litoral. Com isso e por conta de os corredores serem vazados, dispensa-se o uso de ar-condicionado, dada a ventilação cruzada. Os elevadores têm sistemas que promovem o uso racional de energia.A área comum do prédio dispõe de equipamentos de lazer bem ao estilo dos condomínios clube contemporâneos. A piscina é um capítulo à parte, integrada às pedras e vegetação do morro vizinho. “É um marco da paisagem e foi pensado como um elemento arquitetônico que respeita a natureza do entorno. Ele promove, ainda, a integração com a rua e o espaço público. Em resumo, é um prédio de arquitetura generosa”, conclui Gnoato.

Bunkers secretos em Curitiba não são lenda. Conheça

 Bunkers secretos em Curitiba não são lenda. Conheça

Não é história da Carochinha: Curitiba tem abrigos antiaéreos. Depois que o mundo descobriu os horrores das bombas aéreas na Guerra Civil Espanhola a partir de 1936, o medo de que bombardeios chegassem a qualquer dia deste lado do Atlântico foi o que impulsionou a construção de diversos bunkers privados e públicos pela cidade.

“O medo de ataques aéreos habitava o imaginário da época e ganhou contornos cada vez mais assustadores com o estouro da Segunda Guerra Mundial”, lembra o historiador Marcelo Sutil, da Fundação Cultura de Curitiba.

Apesar da distância segura dos conflitos que se alastravam pela Europa, África e Pacífico, por aqui a paranoia também se traduziu em hábitos de racionamento de alimentos e exercícios públicos de blecaute. O empresário Luiz Groff, 80, viu isso acontecer com o próprio pai, João Batista Groff, um dos pioneiros do cinema documental brasileiro, que veio a falecer na década de 1970.

Edifício Marumby tem espaço subterrâneo, mas seu criador nunca deixou clara a finalidade do ‘abrigo’.

Edifício Marumby tem espaço subterrâneo, mas seu criador nunca deixou clara a finalidade do ‘abrigo’.| GAZETA

Do dia para a noite o pai foi acusado de ser espião alemão e ficou encarcerado por 18 dias, entre outras coisas, por desrespeitar um blecaute na casa da família na Rua Nunes Machado. “Um oficial montado em uma bicicleta começou a apitar em frente à residência porque estávamos com as luzes acessas. Meu pai saiu à janela e gritou: ‘Os alemães não têm avião para chegar a Curitiba. E não desperdiçariam uma bomba aqui. Sairia mais caro do que o valor da cidade’”, relata Groff.

Interior do abrigo no Edifício Marumby. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Interior do abrigo no Edifício Marumby. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

Nossos abrigos

Além de testemunhar a desventura do pai, Groff trabalhou e morou em um casarão com bunker no Alto da XV, logo atrás do Museu do Expedicionário, na esquina das ruas Saldanha da Gama e Benjamin Constant. A mansão de linhas ecléticas resiste até hoje. E o abrigo antiaéreo também, com os tradicionais respiros (pequenas aberturas) na base de pedra da residência.

Respiros minúsculos fazem o bunker de uma residência no Alto da XV passar despercebido. Hoje o espaço serve de depósito. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Respiros minúsculos fazem o bunker de uma residência no Alto da XV passar despercebido. Hoje o espaço serve de depósito. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

Porém, há quem diga que esses espaços subterrâneos não passam de solução estrutural e higiênica para afastar a construção da umidade do chão. Como é o caso do antigo Clube Concórdia, hoje parte do Clube Curitibano, e do Edifício Marumby, em frente à Praça Santos Andrade. De autoria do arquiteto curitibano Romeu Paulo da Costa, o prédio virou lenda nesse quesito. A arquiteta Lauri da Costa, filha de Romeu, não sabe confirmar a verdadeira intenção do pai com a área subterrânea, mas ressalta que o projeto foi um dos primeiros que ele fez, em 1948.

Entrada para o bunker localizado em uma casa no Alto da XV. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Entrada para o bunker localizado em uma casa no Alto da XV. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

Interior do bunker, localizado em uma casa no Alto da XV. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Interior do bunker, localizado em uma casa no Alto da XV. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

O abrigo do Moinho Rebouças, atual sede da Fundação Cultural de Curitiba, também desperta dúvida. A curva do teto e o fato de não estar no subterrâneo indica que a estrutura não era um abrigo, mas um depósito de grãos, o que se encaixa com a vocação do lugar, que desde 1930 produziu farinha de trigo e biscoitos sob a marca Soberana. Hoje é um arquivo da instituição.

Com o Colégio Estadual do Paraná (CEP) é diferente. Pesquisa acadêmica recente do arquiteto Marco Nogara na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) prova por A+B que a arquitetura do colégio foi adaptada do projeto de 1938 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) no estado do Rio de Janeiro e confirma a existência do abrigo antiaéreo no CEP. “O projeto arquitetônico foi oferecido ao governador da época, o interventor Manoel Ribas, e foi adaptado localmente. Por isso a escola tem o mesmo tipo de arquitetura racionalista e monumental para inspirar a disciplina e organização esperada de uma instituição militar”, explica Nogara. “E com bunkers de aproximadamente 300 m² ladeados por fossos de contenção para resistir ao impacto de qualquer bomba aérea.” Hoje a área subterrânea é espaço multiuso para o colégio.

Abrigo antiaéreo do Colégio Estadual do Paraná, comprovadamente inspirado nos bunkers das Agulhas Negras. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Abrigo antiaéreo do Colégio Estadual do Paraná, comprovadamente inspirado nos bunkers das Agulhas Negras. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

A foto é do início da década de 30, quando a Avenida do Cruzeiro, atual Manoel Ribas, estava sendo preparada para receber o revestimento de macadame.

 A foto é do início da década de 30, quando a Avenida do Cruzeiro, atual Manoel Ribas, estava sendo preparada para receber o revestimento de macadame.


Nenhuma descrição de foto disponível.

Mercês - A Avenida do Cruzeiro (atual Manoel Ribas)

Foto: Acervo familiar de Maria de Lourdes Arruda e Osman Arruda. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (Cid Destefani) de 31 de dezembro de 1995.

"Vamos focalizar a antiga Avenida do Cruzeiro, entre as ruas Brigadeiro Franco e Prudente de Morais. A fotografia nos foi fornecida pela leitora Maria de Lourdes Arruda, através de seu sobrinho Osman Arruda. A história deste pequeno espaço do então arrabalde das Mercês nos foi contada pelo Irineu Mazzarotto, o conhecidíssimo Queixinho.

A foto é do início da década de 30, quando a Avenida do Cruzeiro, atual Manoel Ribas, estava sendo preparada para receber o revestimento de macadame. Pelo lado direito vemos a casa de número 867, onde funcionava a Padaria Felicidade, de André Zanetti e Filhos. Um dos filhos de seu André foi famoso beque central do Atlético. As carroças dos colonos de Santa Felicidade faziam ponto obrigatório naquele estabelecimento, tanto na ida para o centro da cidade, quanto na volta. Ali tomavam café e forravam o estômago com pedaços de cuque, ou então degustavam os famosos chineques, especialidade da padaria do velho Zanetti.

Em seguida à padaria vinha a residência da família Zanetti e, após um terreno vago, vinha o Armazém do Albino e Dona Marta Dumke. Pouco tempo depois de ter sido feita esta fotografia, lembra o Queixinho, começou a circular o primeiro ônibus que ligava o bairro ao centro. Era de propriedade do Bertoldi e todos os moradores da região, quando falavam do veículo, o tratavam por Número Um.

Agora, olhando o lado esquerdo da foto, vemos, no alto do barranco, o açougue do Izídio Fabris, cuja irmã, Lola, também açougueira, possuía uma força descomunal. Sozinha transportava nas costas o quarto traseiro de um boi.

Em seguida ao açougue vemos a residência da professora Estela Barbosa e lá, mais ao fundo, a casa de Igino Mazzarotto, onde alguns anos depois funcionaria o Bar Botafogo, dos irmãos Euclides, Sílvio e Irineu Mazzarotto. Depois da casa vinha o armazém de seu Igino e depois a casa que pertencia à Dona Amália Gasparin Mazzarotto, mãe de Dom Jerônimo Mazzarotto.

Nesta época ali residia um irmão do bispo de nome Pedro e que era alfaiate. Nesta casa hoje funciona o Restaurante Tortuga". (Cid Destefani, 31/12/95)

Rua Mateus Leme, passando por reformas no calçamento em maio de 1942. O objetivo das obras era beneficiar o entorno do cassino que funcionava na região.

 Rua Mateus Leme, passando por reformas no calçamento em maio de 1942. O objetivo das obras era beneficiar o entorno do cassino que funcionava na região.

Nenhuma descrição de foto disponível.

Desde tempos remotos a via foi conhecida como Caminho do Assungüí. Depois teve nomes diferentes em trechos distintos, como Conselheiro Carrão e Simón Bolívar (nomes posteriormente adotados em outras ruas).

Só no final da década de 40 a rua do Assungüí passou a se chamar Mateus Leme, em homenagem a um dos primeiros povoadores da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. (Publicada na Gazeta do Povo de 18 de julho de 1999. Acervo: Cid Destefani. Foto: Arthur Wischral). 

Vista aérea do Estádio João Loprete Frega do Clube Atlético Primavera, no bairro Taboão - Sem data

 Vista aérea do Estádio João Loprete Frega do Clube Atlético Primavera, no bairro Taboão - Sem data


Nenhuma descrição de foto disponível.

— Nostágica imagem da Rua XV de Novembro, da década de 1920. Semelhança arquitetônica com Cidades Européias da época.

 — Nostágica imagem da Rua XV de Novembro, da década de 1920. Semelhança arquitetônica com Cidades Européias da época.


Pode ser uma imagem de 12 pessoas, trole e rua

FABRICA DE BALAS E CHOCOLATES URCA

FABRICA DE BALAS E CHOCOLATES URCA


Nenhuma descrição de foto disponível.

Fila de pessoas para comprar pão na época da 2ª Guerra Mundial. José Nicolau Abagge, conseguiu importar trigo da Argentina durante a guerra, produzindo pães para a população e bolachas que eram enviadas para os soldados da FEB que estavam no front de batalha.
Na foto, da esquerda para direita: O predinho do "Armazém São Francisco, Padaria e Fábrica de Bolachas". No prédio do meio, o primeiro Supermercado Abagge. No prédio da direita, a "Fábrica de Chocolates e Balas Urca". Em todos prédios, a parte superior era formada por residências na frente e, nos fundos, os salões eram utilizados pelas indústrias.


Nenhuma descrição de foto disponível.

Embalagem do bombom de "chocolate ao leite."


Nenhuma descrição de foto disponível.

O Ford da Padaria São Francisco (dirigido por Elias Abagge, irmão do sr. José Nicolau), era usado para fazer entrega de pães e correlatos nos armazéns da cidade e periferia.


Nenhuma descrição de foto disponível.

Logomarca da Fábrica de Balas e Bolachas São Francisco.


Nenhuma descrição de foto disponível.

Retrato emoldurado com tema do aparecimento da Senhora de Fátima aos três pastorinhos, oferecido pelas Indústrias "São Francisco" aos clientes, uma demonstração do sentimento religioso do sr. José Nicolau Abagge.

Desde criança, ouvia minha mãe, Iolanda Greinert Grani (89), contar suas lembranças do tempo em que trabalhou numa fábrica de balas e chocolates que pertencia ao sr. José Nicolau Abagge, a qual funcionava na rua Saldanha Marinho nº 1260 (entre a Brigadeiro Franco e a Desembargador Mota), em Curitiba, em frente à Igreja São Francisco de Paula. Lá, trabalhou junto com outra operária, Iracema Scaramella Henze (91), sua colega desde a juventude, a qual tornou-se minha madrinha de batismo.
Minha mãe contou-me que foi admitida, nos idos de 1948, para "embrulhar" balas. Determinada na realização das tarefas que lhe designavam, logo destacou-se entre as operárias. Dona Carmela, esposa do seu Nicolau, logo percebeu sua facilidade de aprender e espontaneidade na realização de tarefas. Então, em determinada ocasião conversou com ela procurando saber sobre seus costumes e perspectivas de vida, onde percebeu, também, seu bom caráter e honestidade.
Em pouco tempo, Iolanda foi remanejada para o setor de expedição de pedidos, onde conferia o peso das latas de balas e outros produtos, carimbava as notas de vendas, colocava os selos dos impostos, conferia as caixas e latas durante os carregamentos, controlava estoques dos ítens fabricados, atendia compradores que vinham do interior e, ainda cuidava da inspeção das outras operárias, no tocante ao uso do uniforme de trabalho e inspeção de saída. Quando a produção da seção de balas atrasava algum pedido, ela ia ao setor de enchimento das latas e auxiliava, até completar os pedidos. Trabalhou nessa fábrica durante três anos e saiu em 1951, para se casar com meu pai Edevino Grani.
Recentemente, lembrei-me do que ela contava com grande satisfação acerca daquele tempo de sua vida, e fui em busca dessa história para melhor conhecer essa empresa, seu empreendedor, e entender o contexto.
Pois bem, o seu José Nicolau Abagge (nome de batismo Yussef), era um imigrante sírio, nascido em 18/04/1892. Seu temperamento empreendedor, aventureiro e corajoso, fez com que, em 1905, com apenas treze anos de idade, se aventurasse embarcar em direção ao Brasil buscando melhor condição de vida para si e seus familiares.
O pequeno José juntou-se a outros meninos da mesma idade, entre eles Jorge Gid e Elias Bitar, e embarcaram clandestinamente em um navio que partiu em direção à "terra prometida", o Brasil. Desembarcaram no Rio de Janeiro, onde permaneceram unidos como irmãos. Naquele começo, mantinham-se vendendo bilhetes de loterias e fazendo bicos em geral. Por sua vez, seu José saía pelas ruas do Rio vendendo doces árabes que ele mesmo confeccionava, pois aprendera a fazê-los com sua mãe, desde sua infância na Síria. Com o dinheiro que produzia, além de manter-se, enviava uma parte para sua família, na Síria, para ajudá-la no seu sustento.
Ele e seus amigos mantiveram-se sempre unidos, algum tempo depois resolveram mudar-se para Curitiba, para tentar a vida pois souberam que havia outros patrícios já estabelecidos na cidade. Ao chegar em Curitiba no começo da década de 1910, José Nicolau começou a trabalhar fazendo sorvetes e doces; depois foi trabalhar como padeiro em uma padaria, cujo dono ensinou-lhe tudo sobre panificação. Mais tarde, esse senhor vendeu-lhe essa padaria que ficava na rua Saldanha Marinho, sendo este empreendimento o início de seu sucesso como empresário. Em 1916, casou-se com Carmela Aymone, imigrante italiana. Em 1934, José naturalizou-se brasileiro.
Trabalhando com determinação, instalou no mesmo prédio um armazém, onde vendia os chamados "secos e molhados". Mudou a padaria para os fundos do mesmo prédio, instalando junto dela, uma fábrica de bolachas.
Com seu espírito empreendedor, construiu ao lado direito desse Imóvel mais dois predinhos de dois pisos. Nesse imediato, instalou o primeiro Supermercado Abagge de Curitiba e, no outro da direita, uma Fábrica de Balas e Biscoitos, mais tarde, ampliada para fabricação de chocolates, também.
Em 05/11/1937, o Jornal da Tarde, de Curitiba, publicava o lançamento das "Balas Caipira", produzidas pela Fábrica de Balas e Bolachas J.N. Abagge: "Alerta Petisada !!! Balas Caipira - Coleções Premiadas. A última novidade a ser lançada na praça, hoje. Além de ser um produto saboroso, oferece aos seus colecionadores os mais lindos prêmios. As Balas Caipira, cuja coleção completa compõe-se de apenas 60 (sessenta) quadros (figurinhas) numerados(as), distribue os mapas elucidativos [...] que formam a coleção. À venda em todos os negócios da Capital e do Interior. Pedidos dirétos pelo telefone 89 - J.N.Abagge - Curityba."
Ao que tudo indica, o empresário José Nicolau Abagge estava tentando seguir o sucesso das Balas Zequinha, as quais estavam sendo comercializadas em Curitiba e no estado, desde 1929, com apenas 50 estampas naquela época. Pena que não localizamos quaisquer figurinhas dessa citada coleção.
Iracema, descreve o funcionamento da Fábrica de Balas em 1948: "Na fabricação de balas, o seu Romão, um imigrante russo e surdo-mudo, era o confeiteiro. Manuseava o tacho fervente, cujo cristal despejava, primeiramente, numa mesa de aço e, depois com a ajuda de um gancho fixado na parede, esticava e dobrava a massa, sem parar, até dar o ponto certo e atingir o diâmetro certo para o corte dele, no tamanho das balas. Nesta seção trabalhavam mais de trinta pessoas, contando as embrulhadeiras. Seu Romão permaneceu na fábrica até a sua venda, em 1958.
"Eram produzidas balas carioca da gema, as de goma, de hortelã, de guaco, de canela, pastilhas de frutas (chamadas tuti-fruti) e outras. A "carioca da gema", era muito gostosa, feita de côco e gema de ovo, era a bala mais difícil de embrulhar, pois era compridinha e pequena. A bala de guaco, também muito apreciada, era quadrada, grande e esverdeada.
Em 16/02/1943, José Nicolau Abagge publica no jornal curitibano Folha da Tarde, a aquisição das marcas de chocolates "Urca" e "Mégue", da fábrica do mesmo nome, de São Paulo-SP, o embrião de sua fábrica de balas e chocolates.
Sobre a Fábrica de Chocolates, Iracema Henze descreve suas lembranças da fabricação de chocolates: "A chocolataria era gerenciada pelo sr. Amorim e a chefe de produção, era dona Daltiva. O bomboneiro era um senhor chamado José. O setor de chocolataria recebia os sacos das sementes de cacau que vinham dos produtores e iniciava-se o processo de fabricacão torrando as sementes. Descascavam, separavam os resíduos e depois moíam as amêndoas até virar pó. Por último, prensavam até virar uma massa que, depois, era derretida; separava-se uma parte que era o chocolate amargo e na outra parte era adicionado leite e açúcar, para fazer o famoso chocolate ao leite. Os chocolates eram levados em formas às geladeiras até dar o ponto de manuseio, depois de desenformados eram espalhados sobre as mesas e embalados um a um pelas operárias que ficavam sentadas ao redor das mesas.
"Na seção de chocolates trabalhavam diversas pessoas na parte artesanal de sua produção e o embrulhamento era manual, onde trabalhavam cerca de 30 operárias. Produzia-se um bom sortimento de bombons: ameixa preta, côco carioca, frutas, passas, damasco, triângulo com passas, creme branco e outros.
"O bombom chamado côco carioca era feito inteiro com côco e recoberto de chocolate. Já o de damasco, era feito com creme branco, ia para a estufa até secar e, depois era coberto com chocolate. Fazíamos um chocolate pequeno, chamado "Bis", tipo grão, em cujo interior tinha licor, eles eram colocados em uma caixinha de papelão.
"Antecedendo a Páscoa, a chocolataria passava a produzir, também, coelhos recheados de vários tamanhos, alem de ovos e outras guloseimas de páscoa. Os ovos de diversos tamanhos, eram embrulhados em papel aluminizado de diversas cores. O menor ovo, era chamado mignon.
"No ano de 1947, em plena 2ª Grande Guerra, a fábrica recebeu uma encomenda inusitada, da parte da Loja (Armazem Scander ?) , cujas vitrines ficavam de frente para a Estação de Bondes que havia na Praça Tiradentes: Fazer um grande ovo de páscoa, que seria colocado na vitrine da loja e seria objeto para venda de uma rifa numerada. Detalhe, o ovo deveria estar envolto a uma Bandeira do Brasil, confeitada, estendida e drapeada com ondulações, nas cores e dimensões oficiais.
"Então a equipe de confeiteiros da chocolataria debruçou-se em fazer aquele ovo de páscoa inusitado, com quase hum metro de altura. Dentro, foi recheado com um grande coelho envolto a papel alumínio e assentado em uma cesta cheia de ovos de diversos tamanhos e cores, em meio a tiras de papel celofane. O ovo teve que ser feito em partes separadas, e, após recheado, montada a parte superior. Foi um desafio que alegrou cátodos e dona Carmela e seu José elogiaram a equipe.
"Terminado o desafio, o grande ovo foi levado à loja e colocado na sua vitrine principal. Aquele ponto de bondes, à época, era o local de maior circulação da cidade. Rapidamente a notícia correu por todos os cantos da cidade e o público vibrou com a idéia.
"A alegria durou pouco pois, logo que a notícia chegou ao ouvido das autoridades, alguém apontou que aquilo feria a lei sobre a bandeira e que ela não poderia ser exposta estampada daquela forma. O delegado mandou retirar a bandeira do ovo. Enfim, o ovo voltou à fábrica e a linda bandeira confeitada, drapeada em seu entorno, foi retirada.
"Na seção de bolacharia, dona Alice capitaneava mais de vinte moças. Produziam as bolachas tipos maria, champagne e maisena. Faziam, também, os biscoitos tipo cream crackers quadrados e os salgadinhos redondos.
"Seu Nicolau, como todos os funcionários o bem conheciam, era uma pessoa muito boa, de um coração ímpar, porém, bastante enérgico, pois assim era necessário ser, para tratar o grande número de funcionários que tinha."
"Certa vez, os cartazes anunciavam o filme A Grande Valsa, que passaria em matinê no Cine Palácio, cuja propaganda despertou entre algumas funcionárias, bolarem um jeito de fugir do serviço, durante aquele expediente. O plano arquitetado envolvia apenas quatro delas, pois, em maior número, poderiam ser descobertas. Chegou a hora, naquela tarde, e, cada uma delas deram um jeito de escapar e esgueiraram-se por um muro que tinha uma passagem que dava acesso à rua e, correram em direção ao cinema.
"Uma outra funcionária, que não foi convidada, descobriu o plano arquitetado e, depois da fuga das quatro cumplices, correu delatar ao seu José o acontecido. Ele ficou furioso, vestiu um terno branco que gostava de usar quando ia ao centro, e foi até a frente do cinema, onde aguardou até o fim da sessão. Na saída do público, as quatro amigas, de mãos dadas, deram de cara com o seu José postado à frente, de braços cruzados, tipo um pai que flagra suas filhas fazendo algo proibido. Elas, correram em direções diferentes e sumiram. À ele restou esperá-las na fábrica. Ao confrontá-las, uma a uma, foi aquele sermão."
Uma das protagonistas era a própria Iracema, então, uma bela jovem de 17 anos, fazendo suas proezas. Saiu da fábrica em 1951 para se casar com Waldemar Henze.
José Nicolau Abagge, foi um empreendedor de rara atividade. Com seu fabuloso tino comercial tornou-se grande empresário, tendo aberto as seguintes empresas: Industrias Alimentícias Abagge, Armazém São Francisco, Chocolates Urca, Panificadora São Francisco, Fábrica de Balas e Bolachas São Francisco, Olaria Abagge, Serraria Abage, Carpintaria Abagge, Fábrica de Brinquedos Abagge, Estamparia Abagge, Latas e Embalagens Abagge, entre outras.
Foi muito influente na vida social, política, econômica empresarial e religiosa do Estado. Foi benemérito na construção da Igreja São Francisco de Paula e a Igreja Ortoxa São Jorge. Foi um dos idealizadores e fundadores do Clube Sírio Libanês do Paraná e do Iate Clube de Guaratuba.
Em 1951, iniciou a construção de um moinho nas imediações da linha férrea Curitiba-Paranaguá, que hoje é o Moinho Anaconda. Não chegou a ver concluída a obra, pois faleceu antes, em 06/04/1953, aos 58 anos de idade. Deixou 10 filhos, 32 netos, 68 bisnetos e 18 trinetos.
Após o falecimentos do seu José Nicolau e sua esposa, em 1953, a Fabrica de Chocolates foi transferida para os filhos Leonardo e Nicolau e seu genro Levy Suplicy Ferreira do Amaral, os quais venderam-na em 1958.
Hoje, o antigo prédio da Fábrica de Chocolates, abriga as instalações das empresas Coletiza e Mada.
(Agradecimento especial aos membros da família Abagge: Dr. Munir Abagge, Sheila Cordeiro Abagge, Mário Abagge e Juçara Amaral Sprenger / Fotos: Acervo da família Abagge, Biblioteca Nacional, Pinterest)
Paulo Grani

CASAMENTO DE FLORA E BENTO, EM 1929 44 Damas de Honra ladearam os noivos.

 CASAMENTO DE FLORA E BENTO, EM 1929
44 Damas de Honra ladearam os noivos.


Nenhuma descrição de foto disponível.

Nenhuma descrição de foto disponível.

Nenhuma descrição de foto disponível.
"Na terça-feira de carnaval de 1927, Bento e Flora se conheceram. Fantasiada de cigana, juntamente com Didi Caillet, Flora foi apresentada a Bento. Dançaram o baile inteiro.
Meses depois, Bento escreveu o que sentia por Flora: “Só entretanto, durante o carnaval de 1927, foi que a minha grande ventura, ventura de amar, começou a emoldurar a minha vida de um encantamento extasiante. Sentia-me correspondido na delícia fascinante dos seus olhos”.
O noivado aconteceu em 23 de setembro de 1928, brindado com champanhe, “enquanto Bento colocava no meu dedo a aliança e o anel de brilhante”, revela Dona Flora.
A união foi selada em 17 de abril de 1929, com pompa e circunstância, em cerimônia na Catedral Metropolitana de Curitiba. “Bento, padrinhos e convidados, de fraque, luvas e cartola na mão. As mulheres ostentavam seus decotados vestidos, resplandecentes”.
Na cerimônia, Flora Munhoz foi precedida por quarenta e quatro damas de honra, trajadas em tules coloridos, num arco íris de “grande beleza”.
A lua de mel do casal veio três meses depois do casamento, devido a compromissos de Bento na Siderúrgica Gonçalves de Sá. Nos primeiros dias de julho, o casal apaixonado embarcou no transatlântico “Cap Polonio” com destino a Europa. O roteiro da viagem constava passagem em Londres, Paris, Madrid, Berlim e Lisboa.
Bento e Flora ganharam 123 presentes que encheram os três compartimentos da casa dos noivos, localizada na esquina da Rua Buenos Aires com a Visconde de Guarapuava. Na revolução de 1930 – saqueadores em nome da nova ordem – invadiram a residência e levaram boa parte dos presentes.
Da união nasceram cinco filhos: Caetano, Mitsi, Daisy, Sandra e Suzana. Seus descendentes diretos em 2010 eram: 17 netos, 30 bisnetos e três trinetos.".
Texto de: Jair Elias dos Santos Junior.
Paulo Grani.